EDITORIAL
Bem-vindos ao número inaugural de Cinema: Revista de Filosofia e da Imagem em Movimento, uma revista internacional dedicada à investigação filosófica do cinema.
Desde as suas origens que o cinema tem sido objecto de pesquisa filosófica em ambos os lados do Atlântico. Nos primórdios do século XX, Henri Bergson (1907) e Hugo Munsterberg (1916) ofereceram as primeiras reflexões filosóficas sobre esta nova arte nascente. Essas reflexões reflectiram, desde logo, diferentes preocupações e diferentes tradições filosóficas. As ideias de Bergson tiveram uma enorme influência na Europa continental e inspiraram inúmeras obras artísticas que persistiram, pelo menos até ao início da Segunda Guerra Mundial. Por outro lado, os estudos pioneiros de Munsterberg quase caíram no esquecimento até aos anos 90 do século passado, altura em que foram alvo de um renovado interesse, nomeadamente por parte dos teóricos cognitivistas do cinema. Durante todo o século XX, na Europa continental, cinema continua a inspirar profundas investigações filosóficas sobre a sua natureza, funcionamento e recepção, integrando, em grande medida, as influências de Gilles Deleuze, Maurice Merleau-Ponty, Theodor Adorno, Walter Benjamin, entre outros. Relativamente à tradição filosófica analítica, com a excepção das obras de Stanley Cavell a partir dos anos 70, os problemas filosóficos relacionados com o cinema tiveram pouca expressão até à mudança ocorrida nas últimas duas décadas. Esta mudança deu um novo impulso ao lançamento de problemas e questões, e estabeleceu um corpus literário por parte de filósofos como Noël Carroll, George M. Wilson, Gregory Currie e Paisley Livingston, que serviu de base a subsequentes investigações e debates neste campo.
Para além disso, ao longo da frequentemente esquecida teoria do cinema, cineastas e teóricos como Sergei Eisenstein, Jean Epstein, Rudolf Arnheim, Dziga Vertov, André Bazin ou Siegfried Kracauer reflectiram, de forma contínua e consistente, sobre o meio e os inúmeros problemas filosóficos levantados pela imagem cinematográfica. A Cinema reflectirá a convicção dos editores de que é necessário revisitar todas estas tradições e congregar as reflexões dos teóricos do cinema com os mais recentes contributos filosóficos nesta área.
Por outro lado, especialmente a partir da viragem digital, as práticas e as definições de “cinema” têm-se tornado menos rígidas. Longe de pretendermos abordar aqui a complexa problemática das definições (as questões “o que é o cinema?” ou “o que é a filosofia do cinema?”, serão deixadas para os nossos colaboradores, neste, e nos próximos números), podemos, não obstante, seguramente afirmar ser hoje quase inquestionável que o cinema tem vindo a integrar outras formas de imagens em movimento. Sem dúvida que a habitual compreensão de cinema enquanto meio restrito à película tem sido profundamente desafiada pela introdução do digital e mesmo os realizadores mais tradicionais não ficam indiferentes às técnicas digitais. O mesmo podemos dizer da televisão. Para além disso, desde os anos 60, que artistas têm recorrentemente incluído o vídeo nas suas instalações e exposições e, mais recentemente, novas obras de arte, têm vindo a integrar a utilização dos novos média. Por todas estas razões, a deslocação da teoria e da filosofia do cinema para os estudos da imagem em movimento e respectiva filosofia, não corresponde apenas uma opção teórica mas reflecte também uma mudança real que se estende a toda a cultura visual contemporânea. Acreditamos que, na sua miríade de formas e aplicações por uma vasta gama de práticas criativas, a imagem em movimento continuará a ser, talvez mais do que nunca, objecto de investigação filosófica e teórica.
As intenções da Cinema são fiéis a esta perspectiva: o seu principal objectivo é oferecer uma plataforma onde o cinema, no seu sentido mais alargado, enquanto ‘imagem em movimento’ ou ‘imagem que move’, possa ser objecto de estudos académicos aprofundados. Ao mesmo tempo que continuará a apoiar a filosofia e os estudos do cinema já estabelecidos, a Cinema pretende também desafiar as divisões tradicionais entre cinema e outras formas da imagem em movimento. Por outro lado, no seu desejo de se manter fiel à longa história da investigação teórica e filosófica sobre o cinema em ambos os lados do Atlântico, a Cinema não se confinará a um único método ou disciplina. Apesar de os editores estarem cientes da divisão que ainda persiste entre as abordagens da filosofia analítica e continental, também reconhecem que alguns desenvolvimentos mais recentes nestes campos mostram que esta cisão pode ser superada.[1] Assim, um dos nossos principais objectivos editoriais é encorajar a colaboração e troca entre disciplinas (estudos de cinema e filosofia), métodos (analítico e continental) e abordagens (marxista, fenomenológica, psicanalítica, cognitivista, entre outras) criando uma plataforma alargada de diálogo que, simultaneamente, possa oferecer novas oportunidades, quer para os académicos emergentes, quer para aqueles que têm já reconhecida obra nestas áreas. Com o intuito de garantir precisamente este objectivo, o Conselho Editorial Consultivo reúne académicos reconhecidos que representam uma gama diversa de tradições. Estes académicos partilham com os editores a convicção de que a publicação de uma revista internacional neste campo é um passo fundamental no sentido do lançamento de um diálogo produtivo entre diferentes abordagens e tradições.
É, por isso, com o máximo de satisfação que publicamos, neste nosso número inaugural, artigos inéditos de alguns dos mais reconhecidos representantes de áreas fundamentais deste encontro entre a filosofia e a imagem em movimento. É nossa convicção que o seu contributo expressa o âmbito diversificado e abrangente da revista.
O primeiro artigo, “A Care for the Claims of Theory” da autoria de D. N. Rodowick, é um excerto do livro An Elegy for Theory, a ser publicado em 2011 pela Harvard University Press, que temos a honra de pré-publicar aqui em primeira mão. Neste texto, Rodowick revisita o trabalho de Christian Metz e debruça-se especialmente sobre o ensaio “Cinéma: langue ou langage?”, um trabalho seminal no qual Metz procura construir uma posição discursiva para si e para o estudo académico do cinema. Rodowick argumenta que o teórico francês se confronta com a forma como a semiologia, ainda na sombra de Sausurre, sempre vacilou na sua confrontação com a imagem. Para além disso, Rodowick discute a forma como Metz ambiciona ser conceptualmente preciso, metodologicamente sistemático, e sugere uma nova concepção de teoria do cinema que deriva da fenomenologia, da filmologia, do estruturalismo, da estética clássica, e da cinefilia. A atitude cautelosa e a procura intensiva de Metz anteciparam posteriores desenvolvimentos no campo da teoria do cinema. Como conclui Rodowick, pode-se ouvir ecos deste ponto de vista nas perspectivas para a teoria delineadas por Noël Carroll, 24 anos mais tarde.
O artigo que se segue, “Carroll on the Moving Image” de Thomas E. Wartenberg, parte de uma análise da definição de imagem em movimento avançada por Noël Carroll, e conclui que Carroll não se afastou totalmente do essencialismo da teoria clássica do cinema. Wartenberg defende a necessidade de se repensar o projecto da teoria de cinema, orientando-a num sentido mais profundamente anti-essencialista. Tal orientação implica que se aceite que qualquer conceito de imagem em movimento é historicamente contingente.
O artigo de Raymond Bellour, “Deleuze: The Thinking of the Brain,” aborda um dos temas mais actuais na filosofia deleuziana do cinema. Bellour analisa a perspectiva de Gilles Deleuze sobre o conceito de cinema-corpo-mente que aborda as ligações entre o cérebro e o pensamento, ou entre os neurónios e a mente. O autor demonstra que a forma como Deleuze relaciona a filosofia com o cinema e as neurociências, não tem o intuito de criar uma ciência dos filmes mas, ao invés, tem por objectivo pensá-los filosoficamente. No artigo, Bellour confronta ainda directamente aquilo que considera ser a “aplicação dogmática do conhecimento das ciências cognitivas” por parte da maioria dos teóricos cognitivistas do cinema. Baseando-se igualmente no conceito de afectos de vitalidade de Daniel Stern, Bellour defende que os afectos “associados à força, intensidade, qualidade, forma ou ritmo de uma experiência” são irredutíveis à previsibilidade científica e que “toda a ciência da arte vive, assim, na tensão entre uma ciência real e uma ciência impossível do ser único.”
Numa linha de pensamento totalmente diferente, o ensaio de Patricia MacCormack, “Mucous, Monsters and Angels: Irigaray and Zulawski’s Possession,” analisa a relação entre cinema, corpo, e mente, relacionando-a, ao invés, com as teorias psicanalíticas e com as perspectivas de género nos estudos de cinema. Baseando-se no filme Possession (1981) de Andrej Zulawski e no trabalho de Luce Irigaray, MacCormack questiona o modo o desejo feminino é, e origina, “monstros mucosos” e como estes, por sua vez, se relacionam com a ideia de imagem, ou ecrã, concebida como um novo plano de “prazer do espectador.” MacComack analisa ainda de que modo, neste plano de “prazer do espectador,” este último já não é distinto da imagem e pode experienciar “a imagem sem signo e o Eu sem sujeito.”
Para terminar, Murray Smith chama a nossa atenção para alguns problemas epistemológicos, e reflecte sobre o chamado l’affaire Sokal, um famoso caso que reflecte directamente a divisão entre a tradição filosófica continental e analítica. Smith opta pelo tipo de “procura ética” que Rodowick descreve no artigo de arbertura e diagnostica aquilo que acredita ainda ser ainda um preconceito “contra a filosofia analítica do cinema e áreas de estudo relacionadas, juntamente com um concomitante compromisso com a filosofia continental” e que normalmente desconsidera, de forma errónea, a tradição analítica classificando-a como uma “abordagem limitada, monolítica” ao cinema. Murray argumenta ainda que a própria tradição analítica é pluralista, defendendo aquilo que ele designa como um “pluralismo robusto” que, epistemologicamente, adopta uma perspectiva de relativa plausibilidade. Esta perspectiva, ao mesmo tempo que aceita a contingência de todas as pressuposições, “não desiste de afirmar a possibilidade de algumas declarações de verdade serem verdadeiras”.
A nossa secção de entrevistas é inaugurada com uma entrevista a Georges Didi-Huberman intitulada “Georges Didi-Huberman: « .... Ce qui rend le temps lisible, c`est l´image»” por Susana Nascimento Duarte e Maria Irene Aparício. Nesta entrevista, Didi-Hubermann fala sobre o seu último livro, Remontages du temps subi. L’œil de l’histoire 2, publicado recentemente pela Les Éditions de Minuit, e discute de forma abrangente o tema do seu trabalho actual: as ligações entre a legibilidade da História e as imagens.
A secção de relatórios de conferências é inaugurada pelo relatório “Cognitive Deleuze” de William Brown e espelha a intenção da revista de não se limitar a uma única disciplina ou a uma única metodologia. Brown escreve sobre duas conferências muito diferentes, a conferência da SCSMI em Roanoke e a conferência dos Deleuze Studies em Amesterdão, apelando a um intercâmbio produtivo e crítico que pode ser estabelecido entre ambas. Subscrevemos inteiramente esta abordagem, não apenas como uma forma de manter o debate aceso, mas também como um modo de garantir a presença de um esforço crítico e filosófico em todas as secções da revista.
Esperamos que este número inaugural seja do vosso agrado e agradecemos os vossos comentários [cjpmi@fcsh.unl.pt]. É com enorme prazer que convidamos autores a colaborarem nos próximos números, submetendo artigos à revista. Os artigos serão seleccionados pela sua capacidade de abordarem questões filosóficas sobre a imagem em movimento de forma crítica e inovadora.
Queremos ainda expressar o nosso agradecimento a todos aqueles que contribuíram para que a Cinema se tenha tornado uma realidade. Estamos profundamente gratos aos elementos do nosso Conselho Editorial Consultivo, pela disponibilidade para aceitar o nosso convite e pela forma como activamente colaboraram este projecto, e especialmente, neste número inaugural. Os nossos agradecimentos estendem-se também aos editores de cada secção, Susana Nascimento Duarte, Maria Irene Aparício e Joana Pimenta, elementos fundamentais da nossa equipa editorial. Estamos igualmente muitíssimo agradecidos ao Instituto de Filosofia da Linguagem da Universidade Nova de Lisboa por todo o apoio e ajuda que recebemos, permitindo-nos acreditar que este projecto terá um futuro longo e produtivo. É com a confiança que recebemos de todos que aguardamos atentamente pelos resultados desta publicação, reflectindo o olhar da imagem que encabeça o website, retirada do filme de Manoel de Oliveira, O Passado e o Presente (1972): incapaz de antecipar o futuro, mas impaciente para o ver.
OS EDITORES
Patrícia Silveirinha Castello Branco
Sérgio Dias Branco
Susana Viegas
NOTA
[1] Ver, por exemplo, Paisley Livingston e Carl Plantinga, eds., The Routledge Companion to Philosophy and Film (Londres: Routledge, 2008) que inclui entradas sobre autores como like Rudolph Arnheim, Benjamin, David Bordwell, Christian Metz, e Jean Mitry, e sobre abordagens como a teoria cognitiva, a fenomenologia, e a psicanálise.



